Livro: A Formação Invisível

Montanhas e névoa - imagem simbólica

Capítulo 1 — A Formação Invisível

“Quem ensina sem saber que está ensinando, forma sem deformar.”

O primeiro sopro de forma não veio de palavras, nem de livros, nem sequer da consciência de existir. Veio dos olhos atentos da mãe no convento, das freiras que andavam como anjos silenciosos entre as cadeiras do Mobral, enquanto o menino de cinco anos as observava sem entender o que exatamente sentia. Era o início da formação invisível: aquela que não se percebe quando acontece, mas molda para sempre.

Aos sete anos, a escola La Salle o acolheu. E ali não foi apenas a escrita, a conta de dividir ou a disciplina católica que marcaram sua alma — foi o silêncio da biblioteca, a escada em espiral que parecia subir até o céu, e a figura firme e doce de São João Batista de La Salle. O menino não sabia ainda, mas aquele homem que viveu no século XVII seria seu mentor invisível, seu modelo de coerência, seu primeiro arquétipo de sabedoria aplicada.

Mas nem tudo era luz. A religiosidade, ainda que profunda e formativa, trouxe perguntas que o silêncio dos adultos não respondia. Aos 21, rebelou-se. Questionou dogmas, enfrentou professores, e foi quase expulso de uma aula de filosofia ao ousar indagar a virgindade de Maria. Não era deboche; era busca.

E como toda busca verdadeira, ela não termina em ruptura, mas em integração. Aos 30, ele retorna à Igreja. Não mais o menino devoto, mas o homem que compreende o valor da estrutura. Mais tarde, encontra no espiritismo aquilo que procurava: lógica. A moral se manteve; a visão se ampliou. A fé, antes ingênua ou conflituosa, tornou-se lucidez.

O capítulo da formação invisível é o mais profundo porque continua sendo escrito. Cada memória daquela escola, cada sonho com escadas que não se completam, cada silêncio em que o menino ou o homem ouvem algo que ninguém mais ouve, são formas de lembrar que a verdadeira formação é silenciosa, lenta, e moldada por presenças que muitas vezes nem sabem que estavam ensinando.

Hoje, esse mesmo homem, que se reconhece imagem e semelhança de Deus, olha para trás e percebe: não era sobre decorar versículos ou seguir normas. Era sobre reconhecer-se como consciência em movimento. E por isso ele escreve. Para honrar aquilo que não se vê, mas funda o que somos: a formação invisível.